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Arquivo SulOnze • Raízes do Sul

Histórias que o placar não conta.

Dez capítulos sobre clube, território, torcida, futsal e reconstrução. Textos completos para entender por que o futebol gaúcho nunca coube apenas nos noventa minutos.

01 / 10
1940–48

O Rolo Compressor e o futebol que atravessou a segregação

O time que dominou o estado também ajuda a entender por que o futebol gaúcho é inseparável da história social de Porto Alegre.

O Internacional venceu oito dos nove estaduais disputados entre 1940 e 1948 com um ataque que virou símbolo de potência. Tesourinha, Carlitos, Adãozinho e companhia formaram o Rolo Compressor, uma equipe de jogo ofensivo e placares largos.

A história fica maior quando se olha para fora das quatro linhas. Em uma sociedade ainda segregada, o clube acolheu atletas negros e de origem popular. O craque Tesourinha veio da Ilhota e Carlitos encerrou a carreira com 485 gols — ainda o maior artilheiro colorado. O Rolo não foi somente um time vencedor: foi uma imagem de pertencimento.

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02 / 10
1956

Quando um clube gaúcho vestiu a camisa da Seleção Brasileira

Antes de o Brasil ser campeão mundial, o chamado ‘Rolinho’ representou o país e conquistou o Pan-Americano no México.

Em 1956, a base do Internacional foi convocada para representar o Brasil no Campeonato Pan-Americano. O time treinado por Teté enfrentou seleções nacionais usando a estrutura de um clube — uma experiência raríssima no futebol brasileiro.

A campanha terminou com o primeiro título da Seleção Brasileira fora do país. Dois anos antes da geração de Pelé levantar a Copa de 1958, jogadores formados e consagrados no Rio Grande do Sul já haviam mostrado que o futebol brasileiro podia vencer longe de casa.

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03 / 10
1969

O Beira-Rio nasceu carregado pela própria torcida

Tijolo por tijolo, o Gigante foi erguido com doações e participação popular às margens do Guaíba.

A construção do Beira-Rio começou em uma área que ainda precisava ser aterrada. Torcedores contribuíram com dinheiro, materiais e trabalho para transformar o projeto em estádio.

Inaugurado em 1969, ele se tornou palco de Brasileiros, Libertadores, Mundial e duas Copas do Mundo. A origem comunitária explica o apelido Clube do Povo de uma forma concreta: parte da casa foi literalmente colocada de pé por quem ocupava as arquibancadas.

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04 / 10
1983

A madrugada em que Renato fez Tóquio falar gaúcho

O Grêmio enfrentou o campeão europeu Hamburgo e transformou 11 de dezembro na data mais internacional do futebol do estado.

Campeão da Libertadores, o Grêmio chegou ao Japão para enfrentar o Hamburgo, então campeão europeu. Renato Portaluppi abriu o placar, os alemães empataram no fim e a decisão foi para a prorrogação.

Renato marcou novamente e definiu o 2 a 1. No Rio Grande do Sul, famílias atravessaram a madrugada diante da televisão. A conquista transformou um ponta nascido em Guaporé em herói mundial e consolidou a vocação copeira que passou a definir o clube.

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05 / 10
1985

O Brasil de Pelotas ficou a dois jogos de uma final nacional

O Xavante eliminou o Flamengo de Zico e fez o Bento Freitas virar centro do futebol brasileiro.

Na Taça de Ouro de 1985, o Brasil de Pelotas construiu a maior campanha de um clube do interior gaúcho no Campeonato Brasileiro. O time venceu o Flamengo no Bento Freitas e avançou até a semifinal.

A trajetória parou diante do Bangu, mas deixou uma lição que ainda ecoa: estrutura modesta não impede uma cidade inteira de competir no maior palco. Pelotas viveu semanas em que o país precisou olhar para o extremo Sul.

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06 / 10
1999

Mil jaconeros diante de cem mil: o dia em que o Juventude calou o Maracanã

A maior final da história da Copa do Brasil em público terminou com um clube de Caxias do Sul levantando a taça.

O Juventude eliminou Fluminense, Corinthians, Bahia e Internacional antes de vencer o Botafogo por 2 a 1 no Alfredo Jaconi. Na volta, mais de cem mil pessoas lotaram o Maracanã.

Cerca de mil torcedores jaconeros viajaram ao Rio. O 0 a 0 garantiu a taça e produziu uma das imagens mais fortes do futebol gaúcho: uma pequena faixa verde comemorando em meio a um estádio quase inteiro alvinegro.

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07 / 10
2000

Quando a Serra rompeu a dupla Gre-Nal

O Caxias venceu o Gauchão em uma final que mudou a geografia emocional do campeonato.

Sob o comando de Tite, o Caxias construiu uma equipe competitiva e venceu o Grêmio na decisão estadual de 2000. O título encerrou um longo período de domínio absoluto da dupla da capital.

A conquista foi mais do que uma taça grená. Ela reafirmou a força das comunidades do interior, reposicionou carreiras e ajudou a projetar nacionalmente um treinador que anos depois conquistaria América e mundo.

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08 / 10
2004–12

Como Carlos Barbosa virou uma capital mundial do futsal

Uma cidade pequena da Serra construiu um clube que foi três vezes campeão intercontinental.

A ACBF nasceu em 1976 e transformou o futsal em identidade local. Em 2001 venceu o Intercontinental na Rússia; em 2004 conquistou a primeira edição reconhecida pela FIFA; em 2012 celebrou o tri jogando em casa.

O feito revela uma característica gaúcha: ginásios como centros de comunidade. Em Carlos Barbosa, a camisa laranja liga escola, base, indústria, família e arquibancada — um ecossistema que exportou jogadores e métodos para o mundo.

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09 / 10
2006

Fernandão ergueu a taça e o Sul venceu o Barcelona de Ronaldinho

A final mais improvável colocou dois personagens gaúchos em lados opostos do mundo.

O Internacional chegou ao Mundial de Clubes como campeão da América e enfrentou o Barcelona de Ronaldinho, Deco, Iniesta e Xavi. O time gaúcho suportou a pressão até Iarley encontrar Adriano Gabiru para o gol do título.

A ironia histórica é poderosa: Ronaldinho havia sido revelado em Porto Alegre; do outro lado, Fernandão liderava o Inter. O 1 a 0 em Yokohama encerrou 97 anos de espera pelo topo do mundo.

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10 / 10
2024

Quando a água cobriu os gramados e o futebol virou rede de apoio

A maior enchente da história recente do estado interrompeu campeonatos, danificou estádios e reposicionou clubes como estruturas comunitárias.

As enchentes de maio de 2024 alagaram centros de treinamento, o Beira-Rio e a Arena, deslocaram atletas e suspenderam jogos. Mas o episódio ultrapassou o calendário esportivo.

Clubes, torcidas organizadas e ginásios viraram pontos de arrecadação, abrigo e logística. Em um estado acostumado a dividir paixões, o futebol serviu como linguagem comum para reconstruir vínculos — lembrando que uma instituição esportiva também pertence ao território que a sustenta.

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